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No Estúdio – Caldas da Rainha desenvolvemos peças cerâmicas a partir da investigação da história da cerâmica portuguesa e do trabalho conjunto com os núcleos cerâmicos portugueses de criação e fabrico.

Situado no Largo Dr. José Barbosa, no centro das Caldas da Rainha, entre a “Praça da Fruta”, nome por que é conhecida a Praça da República, e o Hospital Termal, o Estúdio ocupa o piso térreo do que foi outrora o Hotel Central, edifício emblemático da cidade projectado por Ernesto Korrodi (1870-1944).

A cidade das Caldas da Rainha, situada na zona Oeste de Portugal continental, deve o seu nome às águas quentes termais que abundam no local e cujas características medicinais levaram à fundação do Hospital Termal em 1488 pela Rainha D. Leonor (1458-1525). A povoação, vila desde 1545 e cidade desde 1927, está desde cedo igualmente associada à produção cerâmica, através da actividade dos oleiros que forneciam louça utilitária às populações e ao hospital, tirando partido da qualidade das argilas locais.

Excluindo os achados arqueológicos que apontam para data muito mais remota, as primeiras peças datáveis da produção olárica caldense remontam ao séc. XV. É no entanto por volta de 1820, com Maria dos Cacos (?-1853), que, segundo vários autores, começa a tradição caldense de “cerâmica artística” que irá tornar a região num dos principais núcleos cerâmicos do país. A ela iria seguir-se Manuel Cipriano Gomes (“o Mafra”)(1829 -1905) e, entre outros, José Alves Cunha (1849-1901), Francisco Gomes d’Avelar (1850-1918), Rafael Bordalo Pinheiro (1846 -1905) e Avelino Soares Belo (1872-1927), todos inseridos numa corrente naturalista fortemente influenciada pela obra cerâmica do francês Bernard Palissy (1510-1590), que na segunda metade do sec. XIX é objecto de revivalismo em vários países europeus, nomeadamente, França, Inglaterra e Portugal. A maioria destes ceramistas criaram fábricas próprias, mas aquela que se irá tornar na principal referência a partir de 1884 será a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (FFCR), com o seu director artístico, Rafael Bordalo Pinheiro, a alcançar a notoriedade de que ainda hoje é alvo. Ele será responsável pela continuação dessa corrente naturalista e simultaneamente pela introdução de novas referências e formas. O seu filho, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1922) irá dar continuidade à obra do pai na Fábrica San Raphael (Fábrica Bordalo Pinheiro a partir de 1920) que funda em 1908, já que após a morte de Bordalo a FFCR mudará de proprietário e a sua direcção artística sera assumida por António Costa Mota Sobrinho (1877-1956). Será este que, em direcções já apontadas por Rafael e Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, irá produzir até 1914 peças cada vez mais afastadas do modelo “palissista” pela sua depuração e estilização, e totalmente integradas no estilo Arte Nova.

Embora desde o início afastando-se da produção de louça puramente decorativa, é também desta tradição, e em homenagem a uma família local com várias gerações de oleiros e ceramistas, que é fundada em 1944 a Fábrica de Cerâmica Mestre Francisco Elias. Este projecto e o seu impulsionador, Joaquim Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989), em conjunto com Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990) e os restantes sócios, estarão na origem da SECLA – Sociedade de Exportação e Cerâmica Lda (actualmente S.A) que será um importante marco para a cerâmica portuguesa da segunda metade do séc. XX. Dedicada sobretudo ao fabrico de louça utilitária para exportação, como o nome indica, ela irá impulsionar o sector industrial cerâmico local e nacional não só pela sua dimensão e volume crescente de produção mas, principalmente, pela inovação de técnicas e de formas. Neste último aspecto será crucial o papel de Hansi Stael (1913-1961), que ingressa na fábrica em 1950 como directora artística e que irá fundar nesse mesmo ano o Estúdio SECLA.

Abrindo espaço dentro da fábrica para a colaboração entre os seus trabalhadores e artistas e arquitectos exteriores a ela, neste projecto irão participar ao longo de cerca de duas décadas, entre outros, Thomaz de Mello (Tom) (1906-1990), Maria Antónia Parâmos (1922-1976), Jorge Vieira (1922-1998), Alice Jorge (1924-2008), Júlio Pomar (1926-), António Quadros (1933-1994), Miria Toivola Câmara Leme (1933-), António Areal (1934-1978), José Aurélio (1938-) e José Santa-Bárbara (1936-), assim como Luís Ferreira da Silva (1928-) e Herculano Elias (1932-), os dois últimos ingressando na fábrica e colaborando de forma mais permanente.

Outras fábricas surgem nas décadas seguintes, entre elas as Faianças Subtil criadas em 1977, também vocacionadas para a exportação e em conjunto empregando uma parte importante da população local.

A par desta produção mais massificada, e da produção constante de fábricas de menor dimensão que dão continuidade ao fabrico dos modelos tradicionais, há ainda a referir o artesanato local de louça erotico-satírica, cuja origem está por investigar.

Da história da cerâmica caldense fazem ainda parte entidades de ensino artístico e industrial sediadas na zona com um importante papel no desenvolvimento desta disciplina e na sua expansão a outras artes e ao design: da extinta Escola Industrial e Comercial das Caldas da Rainha, ao Cencal (Centro de Formação para a Indústria Cerâmica) e à ESAD (Escola Superior de Artes e Design).

Bibliografia:

AAVV, Roteiro do Museu Nacional da Cerâmica, IPM, 2003.
AAVV, Estúdio SECLA: Uma Renovação da Cerâmica Portuguesa, MNA, IPM, 1999.
Calado, Rafael Salinas, “Cronologia geral dos fabricos de faiança das
Caldas da Rainha”, in Faiança das Caldas da Rainha: Colecção Berardo,
Câmara Municipal das Caldas da Rainha, 2005.
Katz, Marshall P., Cerâmica das Caldas da Rainha: Estilo Palissy
1853-1920, Edições INAPA, Lisboa, 1999.
Queirós, José, Cerâmica Portuguesa, Lisboa, 1907.