Animalia

Ainda na primeira metade do séc. XIX, Maria dos Cacos (?-1853) terá sido a primeira de uma longa linhagem de oleiros e ceramistas caldenses a explorar a figuração animal. Os seus castiçais e paliteiros em forma de leão, macaco ou caniche, e as suas terrinas em forma de peixe, são algumas das peças que iriam ser continuadas por quem tomou de trespasse a sua oficina, a saber, Manuel Cipriano Gomes (1829-1905), conhecido por “o Mafra”.
Será ele que irá gradualmente introduzir numa produção de cariz mais popular referências mais eruditas, ao gosto europeu da época, nomeadamente, os temas e as técnicas recuperadas pelo revivalismo da obra cerâmica do francês Bernard Pallisy (1510-1590).

A técnica do molde directo explorada por Pallisy na sua abordagem ao tema da Natureza irá influenciar toda a produção cerâmica caldense da segunda metade do séc XIX e primeiras décadas do séc XX. Consistindo na aplicação directa do gesso sobre um objecto, planta ou animal morto, ela permite a reprodução rigorosa e minuciosa dos mesmos. Para o seu tema de eleição, o charco, Pallisy explora a fauna e flora da sua região através de moldes directos de peixes de rio, lagartos, cobras e várias plantas. Com a proximidade do mar e do campo, Manuel Mafra rapidamente alarga este vocabulário a todo o tipo de elementos marítimos — peixes, crustáceos, algas – e campestres — frutos, flores, folhas, legumes, répteis e animais de maior porte. Em alguns casos por imposição de escala ou de acabamento, estas formas seriam modeladas à vista, de forma mais ou menos realista. A utilização de moldes permitia a fácil reprodução destas figuras que eram em seguida associadas nas mais diversas composições, usando como fundo pratos e travessas ou adaptadas à volumetria de jarros, vasos, cabaças e outras objectos conformados em separado. Os ceramistas que se seguiram a Mafra e que a ele foram buscar muitos dos seus motivos e composições também souberam inovar ou trazer novas influências, mas na maioria dos casos deram seguimento às mesmas técnicas.

Nesta colecção iremos recuperar um conjunto de antigos moldes directos adquiridos a uma fábrica da região das Caldas da Rainha. Reunidos ao longo dos tempos e passados de fábrica em fábrica, alguns destes moldes poderão remontar ao início do séc. XX, ou mesmo ao final do séc. XIX. Em paralelo a uma pesquisa que se prevê longa sobre a autoria e datação de todo este material, iremos “reactivar” uma selecção destes moldes e lançar as respectivas figuras ora avulso, ora adaptadas a elementos que as complementam.

Dando continuidade a uma outra técnica tradicional caldense associada a este tipo de peças, as figuras serão “pintadas a vidro” ou, em rigor, com vidrados. Usada com mestria, e tirando partido dos relevos e texturas das superfícies, esta técnica pode permitir uma eficaz ilusão de realidade, sugerindo o efeito que em Pintura é chamado de “trompe l’oeil” (tradução livre: “engana o olhar”). Permite igualmente explorar a transparência, a profundidade e a conjugação de matizes causadas pela sobreposição dos vidrados, e pelo seu atravessamento pela luz.